Devaneios
no meu tempo
Meu ritmo é devagar. Com exceção de um ou outro aspecto meu que destoa dessa máxima, eu vivo em slow. Frequentemente perco o time das coisas porque maturo demasiadamente. Não foi hoje que descobri isso. Sempre soube dessa minha divergência com o mundo próximo. Eu tentei por muitos anos me acelerar, fosse para não perder uma oportunidade, fosse porque achava que aquele ritmo que eu via nos outros era uma questão de tempo e treino, sendo assim eu o alcançaria. Mas, se passaram quase trinta e dois anos da minha existência e continuo de arrasto, leio lentamente, cozinho devagar, me demoro na arrumação das coisas, simplesmente não sei ser rápida. Preguiça? Anemia? Ou minha própria natureza? Não serei capaz de descartar nenhuma das opções.
De certo modo, eu sempre li o meu jeito como inadequado e essa percepção se amplificou na era da rapidez de conteúdos e de relações. Um pouco por essa condição, eu prefiro cozinhar sozinha e sem pitacos. Além de não ter a intromissão do ritmo de terceiros, tem a parte de que posso me ancorar no presente, seja sovando a massa, cortando a couve ou misturando os temperos, serenando minha mente e vivenciando com calma o ínterim que envolve um preparo. Cozinhar pra mim exige dedicação completa, nada de multitarefas, o meu foco é exclusivamente no que estou fazendo, caso contrário, não consigo me conectar comigo e me perco nas receitas, mesmo as mais simples. Cortar a cebola enquanto a frigideira já está no fogo com a manteiga? certamente vai queimar, porque além de eu ser devagar, a pressão me faz perder ainda mais a mão.
Me lendo em voz alta, vejo o tamanho da romantização que atribuo ao cozinhar, porém não sei vivenciar de outra forma. Talvez o que traz pra você essa sensação seja bordar, fazer trabalhos de marcenaria ou sei lá, pintar quadros, no meu caso o meu estado meditativo é atrelado a ter um tempo pra cozinhar e poder derramar minha pieguice sem reservas, por isso gosto tanto da cozinha.
P.S. Hoje to zero receitas pois estou em estado de proletariado que não vê a hora do fim de semana e não queria contaminar a comida com o cansaço.
Eu sou a Raici, autora de mim, persistente e teimosa nas horas vagas, cantante, rebolativa e tagarela. Cozinho palavras e afetos. E busco o extraordinário ao meu modo. Sinta-se à vontade, e, caso queira, passe esse texto adiante. Se inscreva pra receber meus escritos sempre que eles decidirem existir. Bon Appetit!


